Bernardo queria dominar sua cidade. Não sabia por onde
começava; não sabia se queria ser médico ou escritor – não que não se visse como
advogado. Existiam tantas opções que o atraíam igualmente em todas as áreas do
saber que ficava estático, esperando que uma delas vencesse algum tipo de
corrida sobre as outras e o tirasse dessa impotência que o devorava.
Sua curiosidade e interesse pelos mais diversos
assuntos eram inesgotáveis e por isso não poderia declarar, como todos que
conhecia, que nasceu para ser um médico – ou advogado ou escritor. Suas ações
eram como uma colcha de retalhos: não se completavam, ou sequer faziam o menor
sentido entre si.
O que Bernardo de fato apreciava era a diversão e a
decadência moral, e sua cidade era o palco perfeito para seus desvios. Via a
cidade como um monstro colossal, desconhecido, pronto para ser explorado pelos
mais intrépidos aventureiros que o mundo moderno tem para oferecer. Veja bem, Bernardo
não tinha as melhores qualidades para ser um desbravador da urbanização: morava
com sua mãe, vinha de boa família, era tímido, e, no fundo, apreciava os
valores morais que tanto gostava de ver ruir na cidade. Porém, isso não o
impedia de fazer desse desbravamento a atividade que mais consumisse seu tempo.
Ora se encontrava em bares sujos do centro da cidade, em meio à mendigos e todo
o tipo de dejetos da seleção artificial cosmopolita; ora estava nos bairros
mais nobres da cidade, em lares que considerava como o ápice da arquitetura
urbana, conhecendo filhos de empresários e transando com filhas de políticos.
Existir em ambos os mundos era extraordinário, afinal, sair da rotina tornou-se
um grande problema da vida utilitarista e positivista das megalópoles e
Bernardo mal se lembrava da última vez que previu, remotamente, o que faria com
seu dia.
Existir em ambos os mundos também implicava que
Bernardo não fazia parte, realmente, de nenhum deles. Tinha uns poucos amigos
que assim como ele transitavam entre os estratos da sociedade e só. O restante
de seu círculo social era composto de conhecidos, mulheres que gostaria de
transar, traficantes e subservientes, e a solidão decorrente desse quadro
assolava seus pensamentos constantemente – nada grave, intermitentes quadros de
tristeza que eram curados por noites de sexo, maconha e cerveja. Mas havia a
inquietação, o subproduto do senso crítico afiadíssimo de Bernardo (ora,
relacionar-se com pobres e ricos desperta o ceticismo e cinismo em qualquer um)
que fazia com que a cada moça que desejasse, a cada cerveja que bebesse, cada
baseado que acendesse fosse impregnado com dúvidas existenciais, políticas e
ódio de si – o motivo de toda estranheza e falta de jeito de Bernardo. Cada
vontade era examinada diversas vezes e a ação resultante era contaminada de
incerteza, profundo desejo de aprovação e descrença profunda na esperança de que
um dia poderia ser feliz, dado que tudo que fazia era automaticamente examinado
de modo cruel por seu cérebro.
continua...
DOMINAR A CIDADE!
ResponderExcluirhttp://www.youtube.com/watch?v=EFBBHj2Vrm4
Curti o texto achei bem interessante porem a parte de dominar a cidade achei um tanto quanto estranha.
O que significa dominar a cidade?